O nada e o bem

Uma palavra estranha para começar um artigo: deriva do Latim “nihil”, significa “nada”.

Quando falamos de niilismo, no senso mais comum, referimo-nos a uma forma de pensar, entender e atuar que não obedece a um quadro ou hierarquia de valores de referência que nos possam guiar nos nossos pensamentos e ações. Em certos meios e grupos, percebe-se que hoje esta teoria esteja em voga: não acreditar em nada a que se possa dar sentido ou orientação.

Será a nossa sociedade nihilista? As generalizações são sempre perigosas abusivas totalitárias, contêm uma lógica de terrorismo nelas: o nivelamento e o confinamento da realidade a uma métrica. Na sociedade portuguesa, por exemplo, convivem tantas histórias, tantos grupos distintos, tantos quadros de valores, tantas interações não analisáveis, não categorizáveis que, na realidade, se torna difícil elaborar afirmações e ideias com a tal pretensão totalizante.

Ainda assim, gostava apenas de partilhar, modestamente, a minha sensibilidade diante da afirmação: “vivemos numa sociedade niilista”.
Através da forma como olho o mundo, como consumidor de pop culture, através da música, das séries, dos meios de comunicação tradicionais, verifico que existem algumas correntes de pensamento que se exprimem de múltiplas formas, as quais põem em causa o conceito de “sentido”. Por vezes, parecem querer dizer-me que, se acredito na espécie humana sou naïf; ou, então, se abordo um desconhecido a partir do princípio da confiança e não a partir do princípio da desconfiança, receberei a paga da minha infantilidade.

Sobretudo no domínio do amor, a ironia e o desencantamento, que são outros nomes para o niilismo, aparecem com frequência nas séries e filmes contemporâneos. Recentemente, vi o filme “Ela”, do realizador holandês Paul Verhoeven: o tema do amor sai maltratado: casos de violação pretensamente consentida, perversões sexuais, traições amorosas, casamentos desfeitos quase ab initio. Podemos dizer: é a realidade e temos de olhar a vida como ela é. E isto não é mentira. Mas o problema começa quando dizemos que esta é “a” realidade e quando o amor que supõe entrega, constância e entreajuda é atirado para o canto como uma coisa pueril.

Precisamos de trazer à luz do dia, pessoas, grupos, instituições, histórias, narrativas, que recuperam e atualizam o que de melhor tem a condição humana. Usando uma palavra acantonada: precisamos de exemplos “edificantes” – no sentido em que edificam, que constroem a pessoa para o seu melhor. Não precisamos do excesso de realismo na arte e na cultura porque, lamentavelmente, já temos demasiado sofrimento e horror à nossa volta.

Há uma miríade de histórias belas, generosas, ternurentas e alegres que passam “debaixo do radar” e todos sabemos ou temos experiências pessoais disso mesmo. Precisamos de as amplificar, tornar audíveis.

Que se levante, agora mesmo e já, a inumerável multidão silenciosa que, nos seus gestos humildes e escondidos, quotidianamente resgata e salva e cura e sustém o mundo. Que se levantem os nossos antepassados que engrossam essa longa marcha e que semearam a profusão do bem e anteciparam a verdade definitiva do que é ser humano. Que se levantem!

Que o seu exemplo nos sustente no caminho e nos lave os olhos e a alma.

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