Um poema (I)

“O caminho menos percorrido” – Robert Frost

A vida é feita de escolhas, umas quotidianas e neutras, outras importantes, algumas decisivas. O autor do poema conta-nos que no bosque encontrou dois caminhos, ambos com folhas por pisar, sem que ninguém tivesse passado por ali. Apesar disso, escolheu o caminho menos percorrido.
A pergunta que faço e, presumo, fará o leitor é: porque escolheu esse caminho e não o outro? Ainda por cima, ambos os caminhos pareciam igualmente inexplorados… Não sabemos o que aconteceu durante esse caminho, que vicissitudes passou, se encontrou algo ou alguém. Na última estrofe, sabemos o mais importante: a escolha desse caminho foi o menos percorrido – muita gente, a maioria das pessoas terá ido pelo outro. Mas este, percorrido, vivido pelo autor (“sujeito poético”, como se ensina na escola) fez toda a diferença na sua vida. Porquê, pergunta o escriba destas linhas? Ele não diz. Declara apenas que o ato de escolher pode ter consequências determinantes na vida da pessoa. E acrescenta que há escolhas que implicam o romper com o que a maioria das pessoas pensa, crê e faz. E essa rutura é decisiva.
As escolhas que fazemos e que são dissonantes das da maioria, só podem ser escolhas que resultam da nossa unicidade intransferível como seres humanos, isto é, quanto mais genuíno, lúcido e consciente sou, mais vezes farei escolhas, pequenas, médias, grandes, que resultam daquilo em que acredito. Essas escolhas levar-me-ão a caminhos menos povoados, mais solitários.
E este é um tremendo desafio, o desafio de toda uma vida: escolher o caminho da semelhança ou o da diferença. O primeiro caminho é mais confortável, seguro, tranquilo… no entanto algo se perde em nós. O segundo é mais solitário, mas é o caminho da liberdade e da autenticidade, da afirmação do que sou como ser único e irrepetível.
Não deixa, para mim, de ser misterioso a facilidade com que tendemos a vender a alma a quem ou aquilo que nos garanta a segurança ou uma paz pouco funda. Isto aplica-se a grandes fenómenos da História como o povo alemão cego e rendido a Hitler, assim como às micro-decisões miméticas no vestir, no falar, no estilo de vida.
Por isso, ergo hoje a minha taça à multidão incontável de homens, mulheres e crianças que seguiram o caminho menos percorrido: os que foram ostracizados, perseguidos ou incompreendidos; aqueles que viveram à frente do seu tempo; aqueles que não quiseram pactuar com a “loucura da normalidade” e foram chamados de insanos. A esses, ergo a minha taça e sentar-me-ei aos seus pés escutando, como a criança.

Não ser ninguém a não ser tu próprio num mundo que faz o seu melhor, dia e noite, para te tornar igual a todos os outros significa travar a batalha mais dura que qualquer ser humano pode travar e nunca parar de lutar.

E.E. Cummings

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