“A cada momento alguma coisa vem socorrer-nos”

A frase é do escritor Christian Bobin. Escreve de forma muito simples sobre assuntos bastante complexos: sobre folhas e árvores e caminhadas. Apesar desta escrita bucólica e elegante, o autor é, simultaneamente, assertivo, contundente, radical na apreciação do que entende serem as mentiras que pautam muitas das relações sociais que entre nós tecemos.
Bobin tem um conjunto grande de livros publicados, num estilo de prosa poética. Em português, tem, pelo menos, publicado o livro “Ressuscitar”.
Gosto de ler os livros com vagar. Muitas vezes faço-o linha a linha, com régua ou marcador (noto uma grande diferença entre ler de forma mais célere ou ler desta forma mais lenta, deixando que as frases e as palavras possam fazer a sua viagem do cérebro ao coração). Leio com lápis na mão: sublinho, escrevo, anoto aqui ou ali. Gosto, também, de voltar aos livros que vou lendo, sobretudo aqueles que oferecem verdades relevantes e profundas sobre a vida. É o caso deste autor.
Dentre os textos que vou lendo e guardando, partilho aqui a frase que dá o título a estas linhas: “A cada momento, alguma coisa vem socorrer-nos”.
Ela exprime tantas ocasiões, grandes ou pequenas, em que, para mim, foi simplesmente verdadeira: terão sido pessoas ou acontecimentos que foram fonte de consolo ou de ânimo… outras vezes, foi apenas mais tarde, olhando para trás, que me apercebi de uma qualquer mão amiga.
Tenho dificuldade em tornar esta frase um princípio “universal”: tantas e tantas pessoas não veriam qualquer sentido ou verdade nela… Mas eu não estou aqui para estabelecer leis, apenas testemunho que existe uma “mão invisível” que aparece e cura; por vezes, repito, só mais tarde percebo que algo ali aconteceu e que me levantou, guiou, ajudou. A vida não é da ordem do aleatório ou do absurdo. Acredito que há um sentido e uma força. A vida ensina, conduz, ampara. Aparece uma pessoa, dá-se uma coincidência, há uma palavra que lemos ou ouvimos – algo ilumina e abre para um caminho. É consolador saber – de modo visceral mais que racional – que no caminho alguma coisa intervém para não nos deixar cair borda fora.
A vida não é fácil: nó somos atirados para a existência, mal equipados e desprovidos. Mesmo quando crescemos e nos tornamos adultos, há tantos imponderáveis, que se torna difícil mantermo-nos à tona ao longo do tempo.
Feliz aquele que descobre e recebe esse vento fresco que reanima o coração; pela sua própria vida é dom e consolo para outros.
Foi esse o propósito da vinda a este mundo do mais pequeno dentre todos os pequeninos.

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