Livros (I)

O livro que mais gostei de ler foi “O Monte dos Vendavais”. Já li muitos livros, mas este causou-me um especial impacto. A razão ou razões são difíceis de identificar, mas talvez possa resumir numa palavra: a atmosfera. A narrativa passa-se numa casa no campo, algures em Inglaterra. É um local afastado de tudo e todos, da civilização, diria. Este afastamento da civilização representa um afastamento da racionalidade em favor do mundo tumultuoso das paixões. Consigo visualizar a casa, os dias cobertos de uma estranha e fantasmagórica neblina. As personagens de rosto fechado, como se a alegria, o brilho, a luz estivessem arredados não só da natureza, mas da alma das personagens.

O livro tem um travo de romance gótico. Ficou bem gravada na minha mente, uma cena em que o espírito de alguém aparece à janela do narrador, creio, pedindo ajuda. A autora descreve vividamente o quarto: consigo ver a cama alta, os apainelados de madeira, as janelas de vidro com os losangos em ferro e quadros de antepassados nas paredes.

Depois, há o amor impossível de Catherine e Heathcilff – a paixão possessiva e obcecada, condenada ao fracasso.

Gosto dos romances em que o papel do narrador e as falas das personagens são claramente definidos e explícitos. Caberá ao escrito buscar a grandeza e o carácter perene da sua obra à caracterização das personagens, à sua profundidade psicológica, às lições e aprendizagens que o autor quer fazer passar. Mais do que isso, ou, para além disso, a capacidade de me questionar sobre a minha vida e de me desafiar a pensar e agir de forma diferente. Este é um efeito maravilhoso das obras de literatura: o efeito do deslocamento – tirar-me de um lugar e desafiar-me a assentar arraiais em outro lugar.

Outro livro que gostei bastante foi “A Montanha Mágica”. A leitura deste livro corresponde a uma nova fase da minha vida de leitor – a leitura de obras em voz alta e/ou de forma lenta e pausada. Uma parte deste livro, li-a para a Sofia. Creio que este processo de leitura teve como consequência ter ficado com memórias muito vívidas e claras de partes do livro. As descrições do sanatório, dos quartos e salas; os passeios na natureza ou à vila mais próxima; os repousos de Hans Castorp ao frio na sua varanda sob um espesso cobertor, etc… Não é um romance fácil, porque, nele, o autor faz uma reflexão epocal entre os valores do humanismo e do iluminismo e a religião cristã e os seus valores. Há algumas digressões ou excursos que me soaram enfadonhas, especialmente uma sobre o mundo da anatomia. Ficou bem gravada na minha memória e imaginação a última cena do livro: a Europa entra em guerra, Hans Castorp, o protagonista, é alistado e, na derradeira página, Hans é simplesmente engolido pela noite enquanto avança para o combate. Nada mais sabemos dele. É todo um mundo, feito de cultura, técnica e civilização que desaparece no negrume da guerra. Muito bom.

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