“Toda a nossa vida não é mais que um sopro”

Quem o diz é o autor do livro dos Salmos, um conjunto de 150 poemas onde se misturam queixas, alegrias, perseguições, louvores na relação do crente e do povo a que ele pertence com o seu Deus.
Que quererá dizer o autor desta frase tão forte?
O sopro é uma exalação breve e rápida. Será a nossa vida, também ela, breve e rápida? Aos quinze ou vinte anos somos eternos: a vida pela frente, em nós pulsam todas as forças; projetos e sonhos estão em crescendo. Nessa fase, nada em nós “encontrou ainda o seu cume”.
À medida que os anos se vão sucedendo e que a nossa história pessoal se vai estendendo, com as suas retas e curvas, problemas e alegrias, começamos a perceber que o tempo se escoa rápida e silenciosamente. Aos cinquenta anos, tenho uma consciência bem forte da rapidez do tempo que passa!
Para além desta ampulheta ininterrupta, a vida passa “como um sopro”, também, porque é tremendamente frágil. Não me custa acreditar que ao longo da história da humanidade, esta consciência da fragilidade da vida possa ter acompanhado os nossos antepassados como uma sombra: taxas altas de mortalidade infantil, esperança média de vida mais baixa, guerras e doenças frequentes, condições de vida precárias.
As gerações do século XX e do século XXI serão provavelmente aquelas que experimentam melhores condições de vida, uma vida mais longa e com melhor qualidade. Talvez por causa desta realidade tenhamos arredado o sofrimento e a morte para longe da nossa vista. Já não morremos em casa, no dia a dia parece que temos “obrigação” de andar felizes. Vivemos uma ilusão coletiva de que tudo está e estará bem. Compreendo que até um certo limite, precisemos de alguma ilusão. Ninguém suporta estar permanentemente cara a cara com a fragilidade e transitoriedade da existência; mas daí a vivermos como insensatos que dão tudo por adquirido, vai um grande passo. E lá vem o dia que traz no regaço uma notícia trágica, uma reviravolta na vida.
Penso nisso. Aos cinquenta anos, com um pouco de lucidez, percebo, por experiência acumulada e não pendor melancólico, que a saúde é bem a estimar e sempre a proteger. Já vi morrerem demasiadas pessoas, perto ou longe, de forma “previsível” ou de forma abrupta. Essa dolorosa pedagogia vai fazendo o seu caminho, martelando uma estranha incapacidade que nós humanos parecemos ter em dar de cara com as evidências e, ainda assim, nada compreendermos.
Precisamos ouvir a voz quase inaudível dos acontecimentos. Como sensatamente diz o autor da carta aos Hebreus: “todas estas coisas aconteceram para nos servirem de advertência”.
Oxalá.

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