Uma urgência interior

Reparei nesta expressão, que define o monge como aquele que tem uma “urgência interior” num livro de um teólogo – R. Pannikar – chamado: “Éloge du simple: le moine come archetype universel”. É um livro denso, difícil de ler, exigindo calma e atenção.
Nele, Pannikar, reflete profundamente sobre a vida consagrada, sobretudo a vida monástica. Afirma que os tempos que vivemos, exigem uma nova visão e entendimento da vida monástica, muito concretamente, uma nova visão do que é ser monge.
Sabemos que o monge é aquele que vive, só ou em comunidade, uma vida de silêncio, de oração, de trabalho manual, de contemplação. Literalmente, monachos significa “só”. Muito deve a Europa e o mundo à vida monástica, na tarefa de preservação da herança cultural do Ocidente na altura das invasões bárbaras. Pode dizer-se que a vida monástica ofereceu uma decisiva ação civilizadora na cultura europeia.
Atualmente, sobretudo na Europa Ocidental, a vida monástica está em crise: as sociedades contemporâneas têm dificuldade em entender como alguém pode viver uma vida “inútil” quando há tanto para transformar. As vocações diminuem drasticamente, a média de idade dos monges vai aumentando.
Na obra referida, o autor, ao falar dos desafios e do seu entendimento do que seja o monge, tem uma ideia muito interessante: afirma que o arquétipo do monge é constitutivo da natureza humana. Contrariamente àquilo que a tradição e a teologia da Igreja afirmam – que há uma categoria diferente no cristianismo e que até foi considerada superior – este autor defende que o ideal monástico está presente em todos nós e que todos somos chamados a vivê-lo, independentemente da nossa condição de vida.
É uma ideia que me agrada especialmente. Associamos a vida monástica a uma procura e vivência a partir de um centro. Na vida agitada das nossas cidades, sabemos bem que somos puxados em mil direções; somos espartilhados nos nossos desejos mais profundos. Meio perdidos na voragem do tempo, ansiamos por algo ou alguma coisa a partir de onde possamos construir a nossa vida.
Por sua vez, quando olhamos a vida monástica, pelo menos idealmente, vemos um conjunto de pessoas que se desembaraçou de tudo o que consideravam acessório, perturbador, supérfluo ou mesmo inimigo da felicidade. O monge parece ser aquele que escolheu como programa de vida estar centrado no “unum necessarium”, isto é, Deus.
Assim, é interessante e provocador pensar na condição do homem comum como sendo habitado pelo desafio de viver centrado. Esta vida centrada, implica avaliar como se vive, fazer um diagnóstico lúcido da distância e lugares por onde nos fomos afastando do centro e ter a coragem de empreender o caminho de regresso.
É difícil para mim explicar o que possa ser esse centro. Contudo, parece-me que não é difícil perceber o que é viver descentrado: quando andamos a correr atrás de tudo o que temos de fazer; quando não temos tempo para parar; quando somos dominados por pensamentos negativos; quando vivemos vidas artificiais e superficiais.
Talvez possamos pedir à vida monástica um ou outro conselho para as nossas vidas: não ter medo de fazer opções para que possamos preservar a nossa integridade interior; reconhecer que também a nossa vida interior, a nossa alma, precisa de alimento e que nem todo o alimento espiritual é igualmente são. Talvez possamos, também, receber da vida monástica o ideal do equilíbrio: entre trabalho e oração; entre a palavra e o silêncio; entre o céu e a terra; entre o presente e o futuro.
Pannikar fala do monge como aquele que tem uma “urgência interior”. Que poderá significar esta enigmática expressão? Talvez que a sua vida esteja tensionada, como a flecha no arco, para o centro. E nós, que vivemos as vicissitudes da vida de trabalho, casa, família, carregando também as interrogações sobre esta nossa passagem sobre a terra, nós precisamos, se queremos estar verdadeiramente vivos, de empreender urgentemente esse caminho de regresso.

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