Artesãos do nada

Corremos o risco de sermos artesãos do nada” (S. Macário)
Li esta frase no livro: “A Filocalia”, nome estranho para a maioria das pessoas; literalmente, significa “o amor do belo” – uma palavra que é um desígnio.
O livro enraíza-se na espiritualidade ortodoxa: no século XI, em 1054 mais precisamente, deu-se a cisão entre a Igreja latina, a Ocidente do continente europeu e a Igreja Ortodoxa, a Oriente. Daí em diante desenvolveram-se duas formas distintas de viver a vida cristã.
A “Filocalia” é uma recolha de pensamentos e tratados de monges, teólogos e sábios da Igreja Ortodoxa sobre a vida espiritual. Foi nesse livro que encontrei a citação que dá o mote a este texto.
Quem é o artesão? É aquele que através das suas próprias mãos cria, constrói algo. Subjacente está um trabalho pessoal, manual, de criação. No nosso imaginário, associamos o artesão àquele que tem um mester, um artista que tem o seu ofício.
E o que é o “nada”? Simplesmente, a ausência do que quer que seja, o vazio, a negação.
Frases como esta – radicais – podem conter simplificações perigosas; no entanto uma frase radical pode ter o mérito de nos dar um “choque de sentido”.
Dizer a mim mesmo que corro o risco de ser artesão do nada é o mesmo que dizer que aquilo por que vivo e trabalho e luto, afinal pode ser nada mais que um punhado de areia nas mãos.
O que será que faz com que a vida de alguém seja significativa, por oposição à vida de uma outra pessoa que constrói um “nada”? Mais: valerá sequer a pena tentar essa reflexão e essa distinção? Em bom rigor, é o que fazemos a toda a hora: avaliamos, comparamos, hierarquizamos atitudes e comportamentos segundo a nossa escala de valores. Assim, olhamos para a vida dos outros e estabelecemos juízos de valor: “Aquela fútil nunca me enganou”, “Tens esse emprego de sonho, oxalá não te aconteça nada de mal”.
Volto à frase de S. Macário: porque podemos nós correr o risco de sermos construtores de nada? Na sabedoria bíblica, no livro do Eclesiastes, está dito: “vaidade das vaidades tudo é vaidade!”: literalmente, “vaidade” significa “vapor”: aquilo que se esfuma, que é fugidio e não permanece. Também a filosofia budista alerta para a inconsistência e impermanência da realidade.
Se aprofundarmos a nossa reflexão, não poucas pessoas, consideram que a sua vida é terrivelmente insignificante: o emprego que tem e não merece o reconhecimento de ninguém; as rotinas cansativas para manter um casamento, a educação dos filhos e o pagamento das contas – e, no final do dia ou da vida, a sensação insidiosa de se ter vivido em vão.
Ainda assim, seja por um posicionamento existencial e filosófico, seja pela dureza da vida, a frase de S. Macário é um alerta para os distraídos.
Um pensador afirmou que vivemos uma “vida morta”. É uma frase estranha. Se estou vivo não estou morto; se estou morto não estou vivo. Talvez pudéssemos antes dizer: viemos uma vida sonâmbula. O sonâmbulo levanta-se, caminha, sabe os cantos à casa, mas na realidade não está desperto.
Será um dos riscos da nossa vida esse sonambulismo: viver a vida de cada dia de forma mecânica, massificada, “aviando” um dia após outro? Teremos perdido o espanto e o maravilhamento que as crianças têm? Essas sim, estão verdadeiramente vivas.
Que fazer?
Voltando aos padres da Igreja ortodoxa, um dos conceitos mais importantes da sua espiritualidade é o de “népsis”: a atitude de atenção e de vigilância: se não estivermos atentos, é fácil distrairmo-nos como o aluno que “sai” da sala de aula inúmeras vezes enquanto o professor fala.
Este é um perigo real: vivermos distraídos, fazermos mecanicamente as coisas, sermos dominados pela rotina, olharmos os outros e as coisas como aquilo que está sempre à disposição.
Poderia ir ainda mais longe e falar da importância que na vida monástica sempre se deu à meditação sobre a morte: a consciência da absoluta fragilidade da nossa vida como remédio para a nossa indolência espiritual.
Precisamos de um “wake up call”, de estarmos vigilantes. Desenvolver uma atitude ativa, consciente e deliberada de estarmos totalmente desperto e recetivos; encontrarmos a forma de chegar ao fim do dia e da vida e poder dizer “não se perdeu nenhuma coisa em mim” (Sophia de Mello Breyner).

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